sábado, 20 de março de 2010

A paixão segundo Marilene

Quem gosta pelo menos um pouquinho de Clarice Lispector deve, com certeza, já ter ouvido falar sobre o seu inquietante livro "A Paixão segundo G.H" que eu recomendo como leitura obrigatória aos leitores de plantão, e mesmo pra quem quer mergulhar no universo literário. O que quase ninguém pôde ver (e eu lamento muito!)foi a performance, por assim dizer, da Marilene hoje a noite na cozinha, num improviso de tirar o fôlego...
E lá estávamos nós três, como quase sempre: Wanina, ela e eu, por motivo de preguiça maior escolhemos para cardápio do jantar um sanduiche Misto especialidade do Bigloso, coisa simples, queijo, presunto e tomate com uns molhos que nem sob tortura eles ensinam, mas inesquecíveis...de repente,vi uma odiosa (por que eu odeio!!!) barata passando ligeirinha pra debaixo do fogão...
achei de falar pra Marilene com a minha calma franciscana:

-Eita, passou uma barata enorme pra debaixo do fogão...

e Ela:

-Enquanto não fecharem a caixa de gordura essas bichas vão ficar assim, aparecendo...

Continuei distraida, comendo meu pãozinho, tomando o meu café com leite, quando de repente lá veio a fia da peste da barata em direção a Marilene...me mexi e ela recuou, voltou pra baixo do fogão, ai eu disse:

-Marilene, a barata ia subir na sua perna!

Pronto!Foi o suficiente pra eu escutar um dos maiores e mais curiosos monólogos da minha vida! Nem Antonin Artaud!Marilene e suas pérolas:

-Tá ai,né? Eu nunca mais queimei nenhuma viva!!!
dou já um jeito em você! A gente tem que falar assim, por que elas entendem!
Vá logo embora se não você vai ver!

Eu passada, comendo o meu sanduíche, no maior desânimo do mundo, acho que a reação a vacina tá me deixando baqueada! De repente, a Marilene interrompeu o monólogo e me perguntou:

-Cadê ela, foi embora?

Eu respondi:

-Não, tá embaixo do fogão!

Ela terminou o café, se ajoelhou olhou debaixo do fogão e retomando o monólogo disse:

-Ah, morreu?! Tá com os braços cruzados e a cabeça baixa!
Humf! Morreu não!Tá se fingindo, né? Você vai ver uma coisa!!!

(...)

Nesse momento, querid@s leitor@s, eu que já tinha tomado o meu cafezinho quentinho, tinha sentado no sofá e não pude presenciar os próximos acontecimentos, só ouvi quando a minha Bela Wanina gritou:(rs)...( ai, meu Deus, eu tenho que rir!)

-Madrinha, é seu aniversário!!!
( e a pequena desandou a cantar histericamente!)
Parabéns pra você, nessa data querida, muitas felicidades...

A Marilene não gostou muito não da comemoração e gritou com ela:

-Não, menina, oxe!!Não é meu aniversário não!

E a Wanina:

-Apaga o bolo madrinha!

bom, ai eu fiquei curiosa e fui ver de perto o que estava acontecendo:

-Queimasse a barata, Marilene?


e ela:

- Queimei, oxe!!E a Wanina dizendo que é meu aniversário...Vai-te!!!


Minha gente...tô tão indisposta hoje, mas essa eu tinha que registrar aqui nesse diário(já não tão diário assim), por que desconfio que a Clarice onde quer que esteja abstraiu, e tenho pra mim que se pudesse incluiria no seu famoso livro a inusitada cena do bolo de aniversário, digo da barata de aniversário, tostada, incinerada!


Waleska Dacal
20/03/10

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Caixa de Pandora

Caixa de e-mail é quase uma caixa de Pandora, hoje eu estava vasculhando algumas caixas de e-mails meus, tenho pelo menos umas 4, que mal uso, sei nem por que as criei, mas enfim, eu queria apenas achar a minha senha da CAPES, e tava fazendo uma verdadeira operação pente fino quando encontrei uma das minhas cartas bombas, extremamente radiativa, dolorida, corrosiva, sincera, foi como se de repente eu tivesse entrado por um corredor muito longo e sombrio que lá no fim , lá no fim, abrigasse um enorme espelho no qual pude me ver por inteira.
Palavras claras, orações diretas, afirmações precisas, elencando certezas, sem nenhuma dúvida, sem nenhum receio, pontuada por mágoas, mágoas, que transcorrido algum tempo, eu já não enxergava... Mas, sei que ainda estão lá, silenciosas, me assombrando.
É incrível como eu consigo me impressionar com a intensidade das coisas que eu sinto, mas, o mais estranho é perceber como consigo me distanciar delas com o meu silêncio tão respeitoso, uma orbe nebulosa, onde escondo os meus enganos, meu olhar apaixonado pelas pessoas que amo, pelas idéias que defendo, pelas coisas em que acredito, até que me provem ao contrário, evidenciando o meu desvelo, meu lamentável erro.
Deixei a carta lá, esperando o meu próximo esquecimento, li pelo menos umas duas vezes, para reconhecer a dor e a tristeza contida naquelas palavras. Ao contrário do que esperava, não fiquei indiferente, pude até constatar um vazio qualquer, uma tristeza, sem culpas, sem remorsos, sem o meu olhar tão tolo e iluminado por carências e fantasias. Uma tristeza em perceber que aquela Waleska que escreveu há tempos atrás aquela carta já não existe, bem como essa que eu sei, vai esquecer lentamente isso tudo, e, desavisadamente, vai abrir, num dia qualquer, a mesma caixa de Pandora novamente. Um brinde ao ESQUECIMENTO!

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

FUNERAL

Deponha a seu favor num gesto claro
de indiferença ou rebeldia,
e receba das minhas mãos um verso incerto,
memorando fagulhas de alegria
Alegue, quem sabe, numa nota triste
um espanto fatal, uma ferida,
mas vasculhe as gavetas das erratas
arquivadas por você na minha vida.
Dispa o luto, cale o verbo
esqueça o desencanto e a elegia
o engano do olhar muito de perto,
e sepulte, de vez, minha poesia.



Waleska Dacal


" Nunca é triste a verdade, o que ela não tem é jeito!"

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

VENDAVAL

Que o amor ande sempre ao lado do silêncio, que ele se aparte de vez de qualquer palavra que possa ser futuramente usada contra ele mesmo,
que se afaste dos vários sorrisos, ensaiados e imprecisos,
que se exclua da convivência dos faltosos e que da mesma maneira não ande com os que sempre estão presentes, por que com eles acontece que, serão como povoados fantasmas, diante do amor, e já não haverão vozes, ruídos e arrastar de correntes.
Que o amor ande calado e ensimesmado, de olhos vendados e asas cortadas, para que já não alcance o juízo equivocado que fazem a seu despeito, para que já não veja o punhal que enfiarão nas suas costas a revelia, para que não engula as palavras que colocarão falsamente na sua boca, proliferando vozes que nunca existiram,
Que o amor ande somente ao lado daqueles que não o compreendem, mas que o aceitam mesmo sem compreender, por que os que afirmam conhecê-lo já o entregaram por 30 moedas de prata, ou por coisa nenhuma,
Que o amor ande, por fim, contrito, enlutado, descrente, desconfiado, ferido e bem atento às cicatrizes que o marcarão após a passagem do vendaval, para que ele nunca esqueça que será traído, dormindo tranquilamente com o inimigo, que cortará suas asas, ao invés de queimá-lo, acreditando que assim ele nunca mais irá a parte alguma,
Que o amor, então, aguarde o juízo final do tempo, que nunca engana, e possa levantar a cabeça e sacudir a poeira e inventar novas asas e tentar, quem sabe, o seu voo mais alto. E que o amor, mesmo em meio a dor, nunca largue o meu braço.
Waleska Dacal
"(...)O amor não pode conviver com a suspeita."
(Do mito de Eros e Psique)

domingo, 19 de julho de 2009

Dia do Amigo

Amanhã é o dia do amigo, digo isso falando dessas datas pré-estabelecidas que, parece-me, foram criadas para que, vez por outra, a gente pare pra lembrar um pouco sobre coisas importantes.Então, desde ontem comecei a receber mensagens lindas de pessoas que me são queridas, umas que estão constantemente presentes na minha vida, outras nem tanto, mas que, por algum motivo, lembraram de mim.
E passei a refletir sobre as novas dimensões disso que chamamos de amizade, nos dias de hoje, tão repletos de afazeres, compromissos inadiáveis, relações intensas de trabalho e outras tantas responsabilidades.
Comungo desse encurtar de distâncias facilitado pela internet, mas confesso ser do tempo em que os amigos se procuravam mesmo pra falar besteira, pra ficar um pouco na compainha do outro, ainda que em silêncio, pra dividir tristezas e alegrias, desilusões e novas esperanças, não é a toa que conservo amizades construídas na infância e na adolescência.
E me entristeço em perceber o quanto as pessoas tem medo, hoje em dia, de construir boas e duráveis amizades, o quanto vivem assustadas, na defensiva, fugindo de algo ou de alguma coisa que penso ser o reflexo delas mesmas com suas próprias convicções e pensamentos tortos.
Eu fico incrível em perceber que mesmo na rede, há aquelas pessoas que só adicionam nosso nome como válvula de escape, para repassar aquelas correntes que dizem que se você não passar o -E-mail para n pessoas em tantas horas, você vai amanhecer todo tronxo, tronxinho, tronxinho, ou ainda, vez por outra, mandam uma mensagem qualquer hieroglífica, ou em sânscrito, daquelas que você não entende porra nenhuma!E fica assim com cara de ANH!??Cara de paisagem!
Bom, eu não sei se por cansaço, falta de tempo ou amor-próprio, tenho desistido de pessoas assim. Tenho me negado a provar a quem quer que seja o quanto posso valer a pena e o quanto a minha amizade e devotamento são sinceros. Enfim, motivada, também pela tão difundida data de amanhã, DIA DO AMIGO, quero dizer a todos aqueles que se mostraram tão abertos a minha existência o quanto sou grata por tê-los reconhecido nessa vida e o quanto me orgulho em poder partilhar das suas conquistas, amadurecimento diário, de poder dividir confiavelmente os momentos tristes e as alegrias, com entusiasmo e verdadeiro amor.Quero que eles me perdoem as vezes em que me encontram arredia e monossilábica, ou ainda aquelas em que tudo o que posso fazer é ouvir e calar, na certeza de que torço para que suas angustias, dúvidas e ressentimentos, possam dar espaço a alegrias, certezas e perdões.
Nem sempre sou a amiga perfeita, nem a mais tolerante, por que não sou de ficar calada diante das coisas que me incomodam, mas sou sincera e até nas minha reclamações sou intensa e inteira, ainda que verdadeiramente chata. (rs)
Tenham um bom dia amanhã e depois de amanhã e no dia seguinte e hoje e SEMPRE!


(Waleska Dacal)