domingo, 23 de janeiro de 2011

...Depois da chuva

Não restou poesia nenhuma,

E eu acho melhor que assim seja,

Por que acontece, de repente,

de eu querer me entregar a velha nostalgia,

e entrar numas de encher a cara de gim,

escutar Nina Simone,

ler Florbela Espanca, ou os amiguinhos dela,

todos já no além, e que Deus os tenham!

Não posso, no entanto, falar o mesmo sobre a saudade,

Essa ficou e ainda insiste, em cada silêncio que guardo,

Em cada lembrança que resiste nossa, do seu sorriso para mim

E do meu bem querer por você, só por você!

Acaso você teve tempo de entender que vai ficar aqui

Por longo tempo?

Será que você entendeu que quem ama também diz adeus?

Coisas que eu não sei, e talvez seja melhor mesmo eu não saber,

Isso reforça o escudo que me impede de pensar

E me distancia dessa tristeza que me engessa,

E domina a minha praticidade,

Não tenho mais muito tempo para sofrer por amor,

A velocidade da vida tem exigido muito,

Da minha sanidade, da minha razão, pedindo um tanto de embrutecimento,

Que tento revestir, casualmente, de ternura

Através do meu jeito de acreditar e apostar nas coisas simples.

Se pudesse outra vez te encontrar, e falar, um pouco,

Acerca de qualquer coisa que pudesse ou que sempre vá lembrar nós dois,

Pediria a você que lembrasse sempre o primeiro abraço que você me deu,

depois da chuva,

E sentiu que o meu corpo todo estava tremendo,

mas que não era de frio,

Era pela estranheza de constatar com que certeza eu entregava a minha vida em suas mãos,

Sem nenhum medo,

Sem nenhum plano,

Sem qualquer dúvida, e com tantas incertezas,

Sem lembranças,

Sem sonhos,

sem armas!

Waleska Dacal

23.01.2011

“Homem feliz, mulher carente...a linda rosa perdeu pro cravo!”

(Maria Gadu)

"Todo carnaval tem seu fim!"

(Los Hermanos)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Fronte

Passei um verniz forte, por cima das feridas,

pra conservar o brilho,

E fiquei de tal sorte, que da capa endurecida fiz uma couraça,

Então, podem jogar pedras, no meu telhado endurecido,

Podem enfiar estacas no meu jardim florido,

Podem cortar as asas do pássaro que partiu livre,

Caso consigam pegá-lo,

E prendê-lo sem culpas.

Conservo o meu abrigo, e me olho no espelho,

Reconheço a minha face,

Envelhecida e distante, mas algo em meu sorriso,

Ou seria em meus olhos?

Me comanda a seguir em frente,

Sem nunca perder a esperança!


Waleska Dacal

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

so far...

Eu queria encontrar um tipo qualquer de tristeza inesperada e dura, que me fizesse explicar justamente isso que eu sinto agora,
Um passarinho preso na gaiola,
A bola de sorvete preferido que caiu no chão,
A despedida daquele melhor amigo que partiu pra muito longe...so far...so far way
O último ano de colégio,
O vinil favorito da Legião Urbana arranhado,
A camisa de estimação manchada de água sanitária,
Essas coisas que nos pegam de improviso...
Ah, uma topada, daquelas que nos jogam dois metros a frente, tem coisa mais triste?
Inesperadamente triste?
Não!
Tristeza mesmo é sentir solidão, de repente, num lugar abarrotado de pessoas alegres e falantes, e numa fração de segundos perceber que a única pessoa capaz de preencher esse deserto em que você se encontra, não está ali...
Não está ali...e o pior é perceber que já esteve (...) já esteve! (...) e de alguma forma, misteriosa e triste, silenciosa, quase muda, permanece lá, intocável, imperceptível a olho nu...raio x, ressonância magnética, tomografia...eletrocardiograma, ecocardiograma, desafiando todo o qualquer avanço da medicina moderna.

Embaçando o seu sorriso...presente na ausência, continua ali e você, tristemente, se apercebe disso,Subitamente. Simples assim!


Waleska Dacal



"(So promise)
No matter how long it takes for me to get back to you
You'll wait for me"

(So Close So Far-hoobastank)

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Pertencimento

Vale um lamento, por fim, qualquer nota grave, um dissonante acorde qualquer, triste melodia, que me faça entender, entre tantas lembranças, a que melhor lhe descreve, num amontoado de sorrisos e gestos..
Vale medir, sem esforços, a distância real dos meus sonhos e o espaço que eles ocupam dentro da tua realidade, para que depois eu me submeta, ainda que com grande dificuldade, ao vazio que me cabe, povoado da tua lembrança,
Vale ressaltar, no entanto, que nos meus sonhos ainda sinto o seu cheiro, e o calor do seu abraço, que não sei de onde emergem, mas me alcançam e me povoam a alma, como se fossem um agasalho, uma colcha de retalhos todos iguais, num improviso impensado de um amor que já não cabe no pequeno espaço físico que o meu corpo ocupa, e que minha alma habita.
Devo dizer, sem reservas, que mesmo sem saber como, nem por que, eu te pertenço, ainda que desse pertencimento eu não te tenha deixado documento algum de posse, nem inventário, nem grandes certezas, em meio ao meu vagar silencioso e arredio.
Que te fique, ao menos, a impressão desse tanto que eu lhe quis e ainda quero, apesar de não trilhar caminho algum que te alcance, apesar de virar a esquina e mudar de calçada, se preciso for, tantas vezes nos caibam, só para que você não consiga enxergar nos meus olhos que esse amor que me fez ser tua, é de verdade.

Waleska Dacal
13.09.10


“p.s.: Te escrevo, enfim, me ocorre agora, porque nem você nem eu somos descartáveis. E amanhã tem sol.”
(Caio Fernando Abreu)

P.P.S.: às vezes nem eu aguento as coisas que escrevo!
(Waleska Dacal Reis)

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

MENTIRAS


Enquanto você se esforça procurando mentiras que não me convencem, simplesmente com o intuito de não me fazer sofrer, eu vou repetindo pra mim mesma e deixando aqui para a posteridade o que venho ouvindo dia após dia de uma grande amiga: "Mentir dá muito trabalho!!!"
e muito mais simples, apesar de indelicada, é a verdade, com sua áspera certeza.
Enquanto você insiste em seguir no seu inferno particular, repleto de fantasias e imaginações estéreis, paralelo ao meu, eu permaneço colecionando fragmentos de uma realidade sem verniz,mas livre dos ressentimentos que possam deixá-la bolorenta.
Universos opostos,
mundos tão distintos, afastados ainda mais por fantasias e mentiras, num ensaio qualquer de desrespeito que me aborrece e fere, que não compreendo, nem aceito, mas respeito, por que sei que a sua vida é uma mentira e que só podemos oferecer aos outros aquilo que temos.
Enquanto você leva um tempo tentando descobrir o que me fez assim, trilhar o caminho de volta ao meu próprio mundo, tão somente por insistir em subestimar a minha capacidade de perceber as coisas, eu vou vasculhando as minhas idéias, alguns sentimentos travosos, tentando digerir qualquer mágoa e levando comigo a promessa de que nunca mais, nessa vida, te procuro.

Waleska Dacal
27/08/10

"Eu vou derramar nos seus planos
O resto da minha alegria"...
(MENTIRAS -ADRIANA CALCANHOTO)


imagem:http://www.partesdesign.com.br/ms/maio_2007/img/encontros_despedidas_covil_0.JPG -ACESSO EM 27/08/2010