domingo, 20 de março de 2011

Caravana


Caminhava,

caminhava, alheia às curvas do caminho,

Cabeça baixa, rosto sereno, só falava quando por um acaso lhe dirigiam alguma pergunta, mas o tom da voz era sempre o mesmo, distante e um tanto evasivo, vez por outra olhava para atrás como que a conferir se, no último instante ele se atrevera a andar junto a ela, mesmo que soubesse, tinha lá consigo mesma, que para isso seria preciso mais que coragem, seria quase uma profissão de fé.

Não era nem romaria, mas os poucos que seguiam junto a ela, tentavam entoar algum canto que espantasse o silêncio, ou, ao menos, arrancasse dela algum sorriso, mas ela continuava distante, perdida em algum pensamento no qual tivesse a lembrança de estar menos triste, ou mais alegre quem sabe. Naquele lugar-comum, onde havia se acomodado, esperando, pouca diferença fazia estar alegre, ou triste, bastava, talvez, permanecer confiante, com aquela certeza que existe em tudo o que vive, e nessa esperança, exercitar a paciência, a compreensão, o respeito, a tolerância, e outros sentimentos nobres, numa tentativa sublime de superação e compassividade.

Caminhava, porque tantos sois contara, tantas noites, que passou a lembrar dos dias pela sensação que tinha deles, entre calor e o frio, entre aguadouros e estiagens, não media o tempo pelos dias, semanas, meses, que diferença fazia? Contava o tempo pela sensação de seca que sentia por dentro, numa ausência total de lágrimas, que molhassem, vez por outra, as agruras da paisagem por onde seguia, ainda que insistisse em olhar para atrás como que a se enganar que no último instante, ali bem distante, ele estivesse vindo, acenando, sorrindo em poder dividir o deserto medonho que também o assombrava em seu silêncio.

Waleska Dacal

"o que você demora é o que o tempo leva"

(Adriana Calcanhoto)

imagem: assdeusengenhodentro.blogspot.com

sábado, 19 de março de 2011

Resquícios

Eu deveria saber nesse silêncio que insiste,

o tanto que me diz o pervagar das horas,

sem ensaios, nem receios, sem sequer cicatrizes,

na ausência de gestos e na lembrança dos sorrisos.

Eu deveria entender nessa saudade imensa,

que toda inação esconde um medo,

De um confronto qualquer com um sentimento,

que de tão maior que nós, se apodere, se estenda.

Eu deveria dizer o que não foi dito,

de uma forma ou de outra, sobre isso que eu sinto,

que eu senti, e que por hora, sei que me assombra,

mas faltou o verbo certo para o último ato,

que eu guardei na lembrança, e que segue ao meu lado,

quando a noite cai e quando o sol aponta.

Waleska Dacal Reis

" Vim tanta areia andei
Da lua cheia eu sei
Uma saudade imensa"...

(Beth Carvalho)


sábado, 26 de fevereiro de 2011

ERMITÃO


QUERO O ACESSO AO SILÊNCIO, POR DIREITO,
POR ORDEM OU DECRETO,
POR JURISDIÇÃO.
QUE CALE O QUE EU MESMA JÁ NÃO SEI POR CERTO,
ABAFE O QUE EU NÃO DIGO
E CALE O CORAÇÃO.
QUE PALAVRA NENHUMA EXPRESSE O QUE EU PENSO,
OU CHEGUE ATÉ O OUVIDO DE UMA OUTRA NAÇÃO,
INVADA UM VILAREJO, OU QUALQUER OUTRO SÍTIO,
EU PRECISO DO SILÊNCIO DE UM ERMITÃO.
UM SILÊNCIO NOBRE,
DA MELHOR ESTIRPE,
QUE NÃO CAUSE ANGÚSTIA,
NEM ALITERAÇÃO, REPETINDO O ECO DO QUE EU NÃO DIGO,
NÃO ME CONTRADIGA, NEM ME DIGA NÃO...
EU QUERO O ACESSO AO SILÊNCIO, POR DIREITO...

Waleska Dacal Reis
(26.02.11)
"Hoje eu quero ouvir o meu CD pirata do Wando, chorando!"
(Leila Cláudia Martins de Mello)


imagem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjwz1eihYS_rVrDA65nwZUcpd40GiHGHKGtH4bZUYMaiauLJ0O1cNv4WC4eUse-gwDimwnSrgu3E5VODeSyOL95uJf-uIz8TMIrOGP4PVbpwIHFjS6FulPqlihphUyC30_sj36aB-sK36A/s320/ermit%C3%A3o.jpg - acesso em 26.02.2011

domingo, 23 de janeiro de 2011

...Depois da chuva

Não restou poesia nenhuma,

E eu acho melhor que assim seja,

Por que acontece, de repente,

de eu querer me entregar a velha nostalgia,

e entrar numas de encher a cara de gim,

escutar Nina Simone,

ler Florbela Espanca, ou os amiguinhos dela,

todos já no além, e que Deus os tenham!

Não posso, no entanto, falar o mesmo sobre a saudade,

Essa ficou e ainda insiste, em cada silêncio que guardo,

Em cada lembrança que resiste nossa, do seu sorriso para mim

E do meu bem querer por você, só por você!

Acaso você teve tempo de entender que vai ficar aqui

Por longo tempo?

Será que você entendeu que quem ama também diz adeus?

Coisas que eu não sei, e talvez seja melhor mesmo eu não saber,

Isso reforça o escudo que me impede de pensar

E me distancia dessa tristeza que me engessa,

E domina a minha praticidade,

Não tenho mais muito tempo para sofrer por amor,

A velocidade da vida tem exigido muito,

Da minha sanidade, da minha razão, pedindo um tanto de embrutecimento,

Que tento revestir, casualmente, de ternura

Através do meu jeito de acreditar e apostar nas coisas simples.

Se pudesse outra vez te encontrar, e falar, um pouco,

Acerca de qualquer coisa que pudesse ou que sempre vá lembrar nós dois,

Pediria a você que lembrasse sempre o primeiro abraço que você me deu,

depois da chuva,

E sentiu que o meu corpo todo estava tremendo,

mas que não era de frio,

Era pela estranheza de constatar com que certeza eu entregava a minha vida em suas mãos,

Sem nenhum medo,

Sem nenhum plano,

Sem qualquer dúvida, e com tantas incertezas,

Sem lembranças,

Sem sonhos,

sem armas!

Waleska Dacal

23.01.2011

“Homem feliz, mulher carente...a linda rosa perdeu pro cravo!”

(Maria Gadu)

"Todo carnaval tem seu fim!"

(Los Hermanos)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Fronte

Passei um verniz forte, por cima das feridas,

pra conservar o brilho,

E fiquei de tal sorte, que da capa endurecida fiz uma couraça,

Então, podem jogar pedras, no meu telhado endurecido,

Podem enfiar estacas no meu jardim florido,

Podem cortar as asas do pássaro que partiu livre,

Caso consigam pegá-lo,

E prendê-lo sem culpas.

Conservo o meu abrigo, e me olho no espelho,

Reconheço a minha face,

Envelhecida e distante, mas algo em meu sorriso,

Ou seria em meus olhos?

Me comanda a seguir em frente,

Sem nunca perder a esperança!


Waleska Dacal