sábado, 3 de dezembro de 2011

CIDADE FANTASMA

Não, não fui eu não, eu apenas assisti a tudo pelo espelho,

Vi a ferrugem corroer os trilhos,

Vi a poeira apagar o caminho,

Vi o deserto consumir toda a água necessária para que houvesse o choro,

e não houve choro!

E nem mesmo ouviram-se vozes, nem ranger de dentes.

Mas, não fui eu! Eu estava aqui sentada,

ouvi quando ruiu a primeira e a segunda pilastra de sustentação,

Senti quando estremeceram - se as bases que foram construídas,

Mas permaneci imóvel, expectadora passiva,

Conformada até - eu pressentia que em algum momento aquilo tudo viria abaixo -

Mas não me lamentei!

Permaneci sentada olhando do espelho!

Não percebi os escombros, talvez pela distância,

Nem mesmo a poeira causou-me algum dano,

Não ouvi também nenhum barulho!

Nem mesmo quando a cidade fora sitiada

E a ordem aos sobreviventes era de que abandonassem as suas casas,

As suas crenças, ou qualquer outra garantia,

De segurança, de conforto, de fidelidade...

Mas, não fui eu não, eu só não desconfiei,

Nas vezes em que me vi perdida ali, a esmo,

Que aquelas placas cobertas de fuligem escondiam o mesmo aviso:

CIDADE FANTASMA!

Waleska Dacal

(03.12.2011)

...é que Dezembro trouxe-me, de volta, as palavras!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

SETEMBROS...

Ajusto o foco da visão para perceber você,
que me aparece assim, de improviso,
num desvio qualquer,
na contramão,
como seu melhor sorriso,
com o meu melhor sorriso!
Dilatando a sua pupila, meu rosto cora,
o verbo dá o tom da alegria,
e a gente fala, e a gente se toca,
e a gente cala o que viveu um dia.
E eu que chorei outros setembros,
sem grandes esperanças, bem me lembro,
o quanto entreguei a você a minha vida.
Sem grandes esperanças,
sem nenhuma certeza,
e uma vaga impressão, tenho pra mim,
de que a nossa história não foi concluida!


Waleska Dacal
(02.09.2011)



" Olá! Como vai?

- Eu vou indo. E você, tudo bem?

- Tudo bem! Eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro… E
você?

- Tudo bem! Eu vou indo, em busca de um sono tranquilo… Quem sabe?

- Quanto tempo!

- Pois é, quanto tempo!

- Me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios!

- Qual, não tem de quê! Eu também só ando a cem!

- Quando é que você telefona? Precisamos nos ver por aí!

- Pra semana, prometo, talvez nos vejamos… Quem sabe?

- Quanto tempo!

- Pois é… Quanto tempo!

- Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das
ruas...

- Eu também tenho algo a dizer, mas me foge à lembrança!

- Por favor, telefone! Eu preciso beber alguma coisa,
rapidamente…

- Pra semana…

- O sinal…

- Eu procuro você…

- Vai abrir, vai abrir…

- Eu prometo, não esqueço, não esqueço…

- Por favor, não esqueça, não esqueça…

- Adeus!

- Adeus!

- Adeus!"

( na voz de Chico Buarque-Sinal fechado)


sábado, 13 de agosto de 2011

ESCOLHAS


Hoje eu tava assistindo uma daquelas animações do Garfield, repleta de cenas interessantes e engraçadas, quando lá pras tantas um dos personagens disse ao Garfield: “Todo vôo termina com uma queda”, e eu fiquei com essa frase na cabeça, me motivando a escrever essas palavras. Todo vôo termina com uma queda, seja ela calculada, ensaiada, repetidamente treinada até a exaustão, uma hora teremos que colocar os pés nos chão e isso nem sempre se dá de uma maneira sutil. E se trouxermos essa experiência para as nossas voadas diárias, digo, as tantas vezes em que apostamos alto em alguém ou alguma coisa na quase certeza de que vai dar certo, e quase não sentimos a superfície, quase flutuamos e quase levitamos até que, não mais que de repente, sentimos vertiginosamente a nossa alma despencando e nos arrastando com ela, por que tem certos tipos de dores que só se sente mesmo com a alma. È tudo uma questão de escolha, vem a vida tentando seguir através de nós o seu próprio rumo, não que ela venha com placas de orientação, semáforos, sinalizadores, mas quando estamos atentos percebemos que sempre escapa algum sinal, por mais tímido que seja, mas nosso querer muitas vezes mais imperioso que a nossa razão, nos faz persistentes, teimosos até, nos desviando da nossa rota, nos fazendo pegar atalhos que algumas vezes não nos leva a caminho algum, outras tantas nos deixa num beco sem saída, mas a escolha é nossa! E no final de tudo só nos resta aceitar que a vida não é cruel quando insiste em nos mostrar que estamos indo pelo caminho errado, ela é cruel quando respeita a nossa escolha!

Waleska Dacal

13.08.2011

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Ensaio de tão grande amor!!!


Eu ando de mãos dadas com o silêncio, sobretudo agora, que, de improviso, perdi o fio condutor até mesmo da minha própria poesia,

Que forçosamente, nesse instante, me pede pra dizer alguma coisa nesse interlúdio que me fez olhar de frente para o meu coração e constatar que você se alojou aqui dentro, mesmo sem ter te dado certeza alguma, mesmo tendo feito parecer, aos seus olhos, um devotamento qualquer de amizade, em respeito a sua dor e às pancadas tantas que, por força das circunstâncias, foram forjando um outro tom ao meu sorriso.

Aqui no auge do meu desconforto, e pela estranha constatação de que você, possivelmente jamais se dará conta disso, devo dizer que ao ver você sorrindo tão parecido comigo, meu coração se encheu de esperança, e eu me vi cantando alguma melodia que inesperadamente me fez lembrar você ...

As palavras saem quase sem querer,

Rezam por nós dois.

Tome conta do que vai dizer.

Elas estão dentro dos meus olhos

Da minha boca, dos meus ombros

Se quiser ouvir, é fácil perceber”...

Agora que os meus passos deram meia-volta, e que estou catequizando meus pensamentos para ir me distanciando desse ensaio de grande, tão grande amor, eu só queria que tivesse dado tempo de ter lhe dito o quanto, nesses anos todos em que você deu voltas pela minha vida, se fazendo necessário e involuntariamente presente, você nunca me passou despercebido, sempre ficava um pouco da sua voz, se misturando ao meu modo de falar, e a energia boa dessa sua integridade, por mais confuso que parecesse ou que pareça agora, estar deixando fluir o que nunca foi dito...de muita coisa na minha vida eu não tinha clareza, e como criança pequena que vai acostumando com a claridade nos olhos aos poucos, eu só consigo enxergar essas coisas agora, possivelmente cedo, ou tarde, não vou abrir uma interlocução pra questionar o tempo, por que nessa história ele sempre deu um jeitinho de trazer você aqui, e favoreceu mudanças grandiosas na sua e na minha vida, nos colocando face a face, sem espelhos, e sem segredos, é uma pena que só agora consigo entender essa verdade!E é muito estranho constatar que mesmo com o meu coração estando conscientemente ocupado, você conseguiu estar dentro dele!

“As palavras fogem

Se você deixar

O impacto é grande demais

Cidades inteiras nascem a partir daí

Violentam, enlouquecem ou me fazem dormir

Adoecem, curam ou me dão limites

Vá com carinho no que vai dizer’’.

Waleska Dacal

(ao som de Vanessa da Mata - as palavras)

terça-feira, 5 de julho de 2011

o segundo inverno...

“Você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente”..

(Caio Fernando Abreu)

Vou abrindo assim uma pausa qualquer no silêncio da noite, lá fora cai uma chuvinha resistente, e eu tento agradecer aos dias e noites que fizeram esse inverno ser diferente do último que passou e que foi tão frio, mas eu não senti por que na minha lembrança eu só guardei o calor da sua presença ao meu lado.

O que foi tudo aquilo? Me pergunto agora. E não encontro registros nesse imenso vazio que me dá, por vezes, a impressão de que não fui marcada pela sua passagem, e que tudo no final foi tão superficial que, suspeito, não senti qualquer dor, mas sei que doeu!

Doeu pelas expectativas que foram nascendo, doeu por que tudo que é muito novo às vezes requer muito espaço pra crescer, e sai rompendo paredes, muros de contenção, represas, diques, feito rio que por força da vontade humana (por que não cabe aqui falar em destino) é desviado do seu caminho e da sua natureza que é morrer no mar.

Tenho voltado a escrever coisas, catarseando, me despindo, talvez até me reencontrando, nesse expulsar de sonhos, e abraçando com força a realidade.

Sigo apenas o impulso que me faz despejar em palavras os tons finais do que eu nem mesmo consigo entender, sobre o que ainda sinto, dessa maneira que sinto.Chego a me perguntar se realmente permaneço com o mesmo grau de sensibilidade, ou dessa vez a couraça que me envolve e me protege criou tamanha espessura, que me deixou assim em dúvida se esse tanto que eu te quis foi de verdade!

Waleska Dacal

“Acredito nos olhos de quem está apenas observando, aprendendo, sem julgamento. Acredito que existe um lugar para mim, assim como existe lugar para todo mundo. Porque existe lugar para todo mundo. É só procurar... Eu acredito. Acredito no tempo. O tempo é nosso amigo, nosso aliado, não o inimigo que traz as rugas e a morte. O tempo é que mostra o que realmente valeu a pena, o tempo nos ensina a esperar, o tempo apaga o efêmero e acaba com a dúvida."

(Caio Fernando Abreu)