domingo, 3 de julho de 2011

Ao som de Belchior...

Um silêncio enclausurado, muitas vezes, exerce mais efeito que qualquer forma de interlocução, só não consegue ser mais esclarecedor que o brilho de um olhar dentro de outros olhos, por isso, caros leitores, convém, vez por outra, exercitarmos um certo distanciamento de tudo aquilo que nos envolve sem ter permissão, tudo aquilo que nos invade, sem se fazer perceber, que nos transtorna sem que, por certo, possamos definir usando grandes e definitivas nomenclaturas...

Estava aqui ouvindo um pouco de Belchior, com aquela voz rouca a repetir que o novo, o novo, o novo sempre vem...O NOVO SEMPRE VEM!

E não quer saber se vai nos pegar de saia justa muito menos se nos preparamos para reinventar ou redefinir velhos nomes para as coisas que sentimos, enfim, fiz uma pequena pausa nos meus pensamentos toscos de hoje para deixar aqui expresso, ainda que confusamente, o meu perceber, o meu indagar, o meu ãnh, como assim??? Em perceber brechas, portas, janelas, abertas dentro do meu coração, e levar um susto tremendo em constatar que entrou uma pessoa diferente dentro dele, só não descobri ainda o que fazer com isso...

Waleska Dacal

"Não quero lhe falar, meu grande amor, das coisas que aprendi nos discos"...

(Belchior)

domingo, 26 de junho de 2011

Posteridade

Ficou em algum lugar do esquecimento,

Preso, talvez, numa foto distante, e sem muito foco,

favorecendo assim o embaçar, do rosto, do olhar, do tom da pele.

O tempo foi trazendo como favorecimento esquecer também a voz,

Mas, a lembrança com códigos sutis, vez por outra, trouxe de volta o conhecido som,

com o vento.

Desafiando até mesmo o silêncio assegurado pela distância.

Desafiando a saudade.

Ficou imóvel na fotografia, eternizado, sem dizer também a que veio,

Sem saber, por certo, quais as razões de ficar assim para a posteridade,

Mas deixou em mim esse receio de que a grade por trás da fotografia

se rompa, trazendo-o de volta para a minha vida.


Waleska Dacal


Fonte da Imagem:

http://www.cabecadecuia.com/imagem/materias/2d47f57f4c138413df5167958c99efce.jpg acesso em 26/06/2011

terça-feira, 12 de abril de 2011

RIMAS FÁCEIS

Quem pouco fala, muito pensa, coração,
fique calado,
depois me conte o que viu pelo caminho,
se calado você pensa e segue mudo,
corre o risco de permanecer sozinho.
Fale um pouco sobre o verde da paisagem,
ou quem sabe,
sobre as pedras e os espinhos,
no silêncio sobram, sempre, rimas fáceis,
pense menos e fale, ao menos um pouquinho...
Contradição é querer bem e andar calado,
contraditório é fazer voto de silêncio,
de um bem querer reprimido e sufocado,
mas que se expressa, por si só ao quatro ventos...
Quem pouco sente, muito fala, coração, isso é verdade!
O senso comum também tem a sua grandeza,
e no silêncio sobram, sempre, rimas fáceis,
e um espaço imenso para as suas incertezas.


Waleska Dacal

domingo, 20 de março de 2011

Caravana


Caminhava,

caminhava, alheia às curvas do caminho,

Cabeça baixa, rosto sereno, só falava quando por um acaso lhe dirigiam alguma pergunta, mas o tom da voz era sempre o mesmo, distante e um tanto evasivo, vez por outra olhava para atrás como que a conferir se, no último instante ele se atrevera a andar junto a ela, mesmo que soubesse, tinha lá consigo mesma, que para isso seria preciso mais que coragem, seria quase uma profissão de fé.

Não era nem romaria, mas os poucos que seguiam junto a ela, tentavam entoar algum canto que espantasse o silêncio, ou, ao menos, arrancasse dela algum sorriso, mas ela continuava distante, perdida em algum pensamento no qual tivesse a lembrança de estar menos triste, ou mais alegre quem sabe. Naquele lugar-comum, onde havia se acomodado, esperando, pouca diferença fazia estar alegre, ou triste, bastava, talvez, permanecer confiante, com aquela certeza que existe em tudo o que vive, e nessa esperança, exercitar a paciência, a compreensão, o respeito, a tolerância, e outros sentimentos nobres, numa tentativa sublime de superação e compassividade.

Caminhava, porque tantos sois contara, tantas noites, que passou a lembrar dos dias pela sensação que tinha deles, entre calor e o frio, entre aguadouros e estiagens, não media o tempo pelos dias, semanas, meses, que diferença fazia? Contava o tempo pela sensação de seca que sentia por dentro, numa ausência total de lágrimas, que molhassem, vez por outra, as agruras da paisagem por onde seguia, ainda que insistisse em olhar para atrás como que a se enganar que no último instante, ali bem distante, ele estivesse vindo, acenando, sorrindo em poder dividir o deserto medonho que também o assombrava em seu silêncio.

Waleska Dacal

"o que você demora é o que o tempo leva"

(Adriana Calcanhoto)

imagem: assdeusengenhodentro.blogspot.com

sábado, 19 de março de 2011

Resquícios

Eu deveria saber nesse silêncio que insiste,

o tanto que me diz o pervagar das horas,

sem ensaios, nem receios, sem sequer cicatrizes,

na ausência de gestos e na lembrança dos sorrisos.

Eu deveria entender nessa saudade imensa,

que toda inação esconde um medo,

De um confronto qualquer com um sentimento,

que de tão maior que nós, se apodere, se estenda.

Eu deveria dizer o que não foi dito,

de uma forma ou de outra, sobre isso que eu sinto,

que eu senti, e que por hora, sei que me assombra,

mas faltou o verbo certo para o último ato,

que eu guardei na lembrança, e que segue ao meu lado,

quando a noite cai e quando o sol aponta.

Waleska Dacal Reis

" Vim tanta areia andei
Da lua cheia eu sei
Uma saudade imensa"...

(Beth Carvalho)